Punição e Erotismo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi um dos mais expressivos filósofos do século XVIII. Seu pensamento, contemporâneo a Montesquieu, Voltaire, Diderot e Locke, instituiu os novos fundamentos da política e da educação da Idade Moderna. Em Confissões (1770), Rousseau expõe sua intimidade desde o nascimento até a idade madura, além de abordar os contextos em que se desenvolveram suas reflexões publicadas em Contrato Social, Emílio e Discurso Sobre a Origem e o Fundamento da Desigualdade entre os Homens. Ao longo da narrativa de Confissões, o filósofo conta desde o despertar de sua sexualidade até os grandes amores que marcaram sua vida, influenciados pela experiência sexual precoce.
Órfão de mãe e com o pai em dificuldades, Rousseau foi enviado aos oito anos de idade para o pensionato de um pastor protestante chamado Lambercier. Na educação e disciplina dos pensionistas o pastor era auxiliado por sua irmã, Mademoiselle Lambercier, primeira figura feminina a marcar profundamente a vida de Rousseau. Pouco após de haver chegado ao pensionato, Rousseau sofreu um castigo corporal por parte de Mademoiselle Lambercier, que tinha então trinta anos. Nas Confissões o filósofo revela como tal castigo foi por ele apreciado e que a associação de punição e erotismo o acompanharia por toda a vida. "Como Mademoiselle Lambercier tinha por nós uma ternura de mãe, tinha também a sua autoridade, exercendo-a por vezes até a ponto de nos infligir o castigo das crianças, se o merecíamos. Durante muito tempo, ficou-se apenas pela ameaça, e a ameaça de um castigo completamente novo para mim parecia-me medonha; contudo, após a sua execução, achei que experimentá-lo era menos terrível do que a sua expectativa; e o que é mais curioso é que o castigo me afeiçoou ainda mais a quem mo havia aplicado. (...) porque eu tinha encontrado na dor, e até na vergonha, um misto de sensualidade que, mais do que o receio, me deixara o prazer de o receber novamente da mesma mão. É certo que, misturando-se sem dúvida nisso qualquer instinto precoce do sexo, o mesmo castigo recebido do irmão [ pastor Lambercier] de maneira nenhuma me teria parecido agradável ". A partir de então Rousseau procurava intencionalmente perpetrar ações que seriam punidas com espancamento. Ansiava pelo castigo físico, mas recebia apenas admoestações verbais. Finalmente, Mademoiselle Lambercier aplicou-lhe a punição tão esperada, porém "esta segunda vez foi também a última : porque Mademoiselle Lambercier, tendo sem dúvida percebido por qualquer indício que semelhante castigo não atingia o seu fim, declarou que renunciava a ele, que a fatigava muito. Tínhamos, até então, dormido no quarto dela, e às vezes mesmo, no inverno, na sua cama. Dois dias depois, mandaram-nos deitar noutro quarto, e daí em diante tive a honra, que aliás dispensava perfeitamente, de ser tratado por ela como um rapaz crescido". A Rousseau não passou despercebido que esta experiência da infância permeou seus laços afetivos ao longo da vida. " Quem havia de acreditar que semelhante castigo infantil recebido aos oito anos das mãos de uma mulher de trinta decidiria, para o resto da minha vida, os meus gostos, os meus desejos, as minhas paixões, e mim próprio, e isso precisamente no sentido oposto ao que naturalmente seria de esperar ? Ao passo que os meus sentidos despertaram, os meus desejos enganaram-se a tal ponto que, confinados no que houvera experimentado, não trataram de procurar outra coisa ". Na vida adulta Rousseau preferia as mulheres mais velhas e dominadoras. Tornou-se o protegido e amante de várias cortesãs e mulheres casadas em diferentes locais da Europa. Em seu imaginário buscava reviver nas novas relações o turbilhão de sensações prazerosas que experimentara na infância. "Atormentado durante muito tempo sem saber de quê, devorava com olhos ardentes as criaturas formosas: a minha imaginação recordava-as a todo o passo ; unicamente para pô-las a servirem-me à minha moda, e fazer delas outras tantas donzelas Lambercier (...) Nas minhas loucas fantasias, nos meus furores eróticos, nos extravagantes atos a que eles por vezes me levavam, solicitava imaginariamente o socorro do outro sexo, sem jamais pensar que ele pudesse servir para algo diferente daquilo que eu morria por extrair dele". O prazer advindo da dor, da humilhação e da dominação por parte de uma mulher mais velha por muito tempo embotou no filósofo a plenitude do prazer que poderia auferir da relação sexual. Bastava para ele " estar de joelhos diante de uma amante imperiosa, obedecer às suas ordens, ter de lhe pedir perdão ", pois era isso que consistia suas " doces delícias ". Somente ao chegar à maturidade "o meu antigo gosto de criança associou-se de tal maneira ao outro, que nunca mais o pude afastar dos desejos ateados pelos meus sentidos ", reconhece Rousseau em Confissões. Por isso mesmo, revela que não foi muito o que conseguiu na vida amorosa, embora considere que, à sua maneira, amou bastante, isto é, pela imaginação. Talvez seja de Rousseau uma das mais perfeitas definições do amante masoquista, antes mesmo que este termo fosse conhecido : "visto que o gênero de prazer de que o outro não era para mim senão o último termo, não podia ser usurpado por aquele que o deseja, nem adivinhado por aquela que pode concedê-lo". Fonte: ROUSSEAU, J-J. Confessions. Paris: Plêiade, 1949.
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