Haveria Tanta Devassidão no Paraíso Tropical? Hans Staden (séc. XVI) era um marinheiro alemão que naufragou no litoral de São Vicente (SP), em 1554. Vinha em uma caravela portuguesa e, como os habitantes do litoral, os tupinambás, eram inimigos dos portugueses, Staden permaneceu cativo entre eles durante nove meses. Ao retornar para a Alemanha, Staden publica, em 1557, a narrativa de sua aventura, conhecida como Viagem ao Brasil. A obra é dividida em duas partes: na primeira, o autor descreve a rota marítima, o naufrágio e o dia a dia no cativeiro; a segunda é dedicada às novidades do país, como seus animais, plantas, alimentação, ritual de canibalismo, adornos e armas dos tupinambás.
É interessante observar que nesta descrição o autor não se detém a repudiar e escandalizar-se com os costumes sexuais dos primeiros habitantes do Brasil. Diferentemente dos documentos dos jesuítas espanhóis e portugueses, além das narrativas de missionários calvinistas , que dedicavam grande espaço à denúncia de pecados disseminados como sodomia , incesto e espetáculos orgíacos, o viajante dedica poucas linhas em sua obra para descrever a vida familiar , o casamento e os rituais de iniciação dos jovens . Em nenhum momento registra "as perversões sexuais " que tanto perturbaram os jesuítas e calvinistas . Em lugar das orgias , afirma que " homem e mulher procedem decentemente e fazem os seus ajuntamentos às ocultas". As crianças têm os casamentos contratados por seus pais e assim que as meninas têm a menarca "(...) cortam-lhes o cabelo da cabeça ; riscam-lhes nas costas marcas especiais e lhes penduram ao pescoço uns dentes de animais ferozes . Uma vez crescido o cabelo de novo , as incisões cicatrizam-se, deixando ver ainda o sinal desses riscos , pois que misturam certas tintas com o sangue , para ficar preto quando saram, coisa que é tida como uma honra . Quando terminadas estas cerimônias , entregam as filhas a quem as deve possuir e não celebram nenhuma outra cerimônia especial ". Os meninos , por sua vez , são iniciados na arte da guerra e da caça , e têm orelhas , lábios , face e nariz perfurados por onde são introduzidos adornos que os distinguem quanto à bravura e à destreza no manejo das armas . Geralmente o homem tem uma esposa , mas os guerreiros mais destacados podem ter 14 mulheres . Um homem toma mais de uma mulher como esposa somente quando tem a capacidade de sustentá-la e à prole . Assim , um homem que mantém mais de uma esposa é um guerreiro que eliminou muitos inimigos e tomou para si suas posses , além de ser exímio pescador e caçador. Staden relata que fora dado como presente , para ser devorado, a um guerreiro chamado Abati Boçange e que este tinha muitas mulheres . De acordo com o costume tupinambá , aquela que fora a primeira esposa era a superiora entre elas e "(...) cada uma tinha o seu aposento na cabana , seu próprio fogo e sua própria plantação de raízes; e aquela com quem ele vivia, e em cujo aposento ficava, é que lhe servia o comer ; e assim passava de uma para outra cabana . As crianças que lhes nascem, enquanto meninos e pequenos , educam-nas para a caça ; e o que os meninos trazem, cada qual dá a sua mãe . Elas então cozinham e partilham com os outros ; e as mulheres se dão bem entre si ". O foco da narrativa de Staden, no entanto , reside na preocupação de ser devorado pelos tupinambás , destino reservado aos portugueses e seus aliados . Ao ser publicada em 1557, a edição foi generosamente ilustrada com cenas de antropofagia e nudez sedutora, embora o mais próximo que Staden tenha chegado a respeito da sensualidade indígena está na constatação de que " é uma gente bonita de corpo e de feição , tanto os homens como as mulheres , iguais à gente daqui" . Em uma Europa imersa no espírito da nova moral desencadeada pela Reforma, preocupada em cobrir cada vez mais os corpos , a associação de rituais de canibalismo , nudez e sugestão de liberdade sexual, manifesta nas ilustrações do texto de Staden, passou a dominar o imaginário das metrópoles em relação aos habitantes do Novo Mundo. Fonte : STADEN, H. Viagem ao Brasil. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1930.
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