Sala História e Antropologia da Sexualidade

A Verdadeira Felicidade da Mulher Reside em Cuidar do Bem-estar do Marido e dos Filhos

O alemão Fritz Kahn (1888-1968) foi médico ginecologista e revolucionou a ilustração gráfica médica na primeira metade do século XX. Suas obras combinam informações científicas, conhecidas em seu tempo, com orientações quanto à moral sexual. Em Amor e Felicidade no Casamento (1940), a parte científica deveria ser de conhecimento do marido (pois a relação sexual deve dar-se no casamento), que a transmitiria em linguagem simples à esposa. Já na moral sexual, domina o papel de gênero da mulher, que tem a missão de procriar, garantir o bem-estar do marido e dos filhos e dedicar-se somente a atividades domésticas ou beneméritas.

Os livros sobre sexo e casamento de Fritz Kahn foram bastante populares no Brasil nos anos 50 e aqueles sobre anatomia e biologia tornaram-se obras de referência. Os textos sobre sexualidade não eram apropriados às mulheres jovens; dirigiam-se ao homem, futuro marido ou marido, e aos pais. O conhecimento adquirido nos livros permitiria ao homem instruir a jovem esposa.

Ilustração. Fritz Kahn foi um importante inovador na arte gráfica da anatomia na primeira metade do século XX, em Zürich, 1939. Fonte: http://www.nlm.nih.gov/exhibition/dreamanatomy.

No capítulo dedicado ao matrimônio, Kahn orienta o marido a como explicar à esposa, na noite de núpcias, o que é o sêmen e a ejaculação. Alerta também para os riscos do primeiro contato brutal com a virilidade, que pode " estragar uma moça " para sempre.

"A mulher deve ser resguardada contra a aversão ao esperma masculino, pois o esperma ejaculado não é substância apetitosa. A substância pegajosa, cheirando a peixe, expelida, em convulsões, do membro intumescido e rubro do homem, é repugnante para uma mulher ainda pura (...).

A primeira experiência sexual é de significado fatídico. Um primeiro contato brutal com a virilidade pode tornar uma moça para todo o sempre imprestável para relações sexuais. A história da mulher frígida quase sempre começa assim : ' Eu tinha doze anos quando...' ou ' Durante nosso noivado...' ou ainda 'Na noite de núpcias...'

Que o homem saiba disso e seja cauteloso. Assim como ele, se for brutal, pode estragar uma moça para outro, pode acontecer que receba por esposa uma moça estragada por outro. Ele deve, pois, tratar de evitar que a moça ainda inexperiente veja a expulsão do sêmen, e que o líquido suje de surpresa a roupa ou as mãos dela. A secreção seminal será tanto menos repulsiva para a mulher quanto mais perto for despejada de seu depósito natural, isto é, o regaço feminino ".

No caso de a mulher sentir repulsa pelo odor do sêmen, o homem deve contar sobre os odores sexuais da natureza, como os das flores, e compará-los aos dos órgãos sexuais. Além disso, que o esperma possui força vivificante e que "a mulher que recebe regularmente esperma se transforma na verdadeira mulher, louçã e bela (...) O sêmen do homem é o adubo que faz viçar a mulher ".

Kahn critica de modo contundente o despreparo das adolescentes para o casamento. Lamenta que as mulheres da primeira metade do século XX estejam se tornando profissionais e não apenas donas de casa, abandonando o cuidado dos lares para entrarem no mercado de trabalho. Enaltece a atitude do século XIX quando "a educação da mocinha para o matrimônio não era problema, pois toda a infância outra coisa não era senão o preparo para o matrimônio ". Cabe às mães orientar as adolescentes, "conduzindo-as do espírito deste mundo de homens de negócios para as calmas águas do matrimônio feliz ".

O novo papel que a mulher assumia no mundo do trabalho desde a Grande Depressão de 1930 nos Estados Unidos e no esforço de guerra da própria Alemanha de Kahn era solenemente ignorado pelo autor.

" Felicidade conjugal é felicidade doméstica e para o matrimônio é muito mais importante que a moça saiba cozinhar bem do que ela seja capaz de escrever 100 palavras por minuto no bloco de taquigrafia. A mãe sabe disso, pois já tem vinte anos de vida conjugal, e deve tentar impedir que, tendo a infelicidade de haver nascido neste século antifeminino, a filha, com preferência pelos aparelhos modernos e novos padrões de vida, encare com desprezo a rotina doméstica e a arte culinária e as considere coisas antiquadas".

Ao assumir o lugar que lhe cabia no matrimônio - cuidar da casa, do marido e dos filhos - a mulher se realizaria diariamente. Este proceder deveria ser ensinado pela mãe às filhas de modo a garantir a estas o preparo para um casamento feliz.

"A missão e o feitio da mulher no matrimônio é transformar, todas as noites, como uma anti-Circe, os homens de novo em seres humanos. Ela transforma o enérgico chefe de serviço em dedicado pai de família e eleva o empregado subalterno a chefe de família ".

Se por um lado, após a Segunda Guerra Mundial, parte importante das mulheres continuou no mercado de trabalho, seguiu carreiras antes reservadas apenas aos homens e conciliou as atividades profissionais com o trabalho no lar, o casamento e os filhos, outra parte significativa retornou tão-somente às atividades domésticas. A mídia mundial, nos anos 50, reforçou a proposta de Kahn, exibindo o estereótipo de mulheres felizes estritamente donas de casa em peças publicitárias e no cinema.

Fonte:

KAHN, F. Amor e Felicidade no Casamento. São Paulo: Boa Leitura Editora, 1940.

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