Ser Puro é Viver em Absoluta Castidade, de Ações e Pensamentos No ano 400, Santo Agostinho (354-430) publica Confissões. É um relato autobiográfico, no qual já estão expostas as questões que atormentavam o filósofo e que encontrariam respostas em seu trabalho mais fecundo, a Cidade de Deus (426). O tema sexualidade está presente em vários capítulos de Confissões, assim como na vasta obra de Santo Agostinho. É uma abordagem sistematizada a partir de três tradições que influenciaram o início do Cristianismo: a dos estóicos, que defendiam a virgindade e a castidade, a dos hebreus, que associavam a mulher e o sexo com a impureza, e a dos maniqueus que consideravam o corpo como fonte de corrupção.
Em Confissões, Santo Agostinho lamenta as "torpezas passadas e as depravações carnais " da sua alma antes da conversão ao Cristianismo aos trinta e três anos de idade. O filósofo relata haver experimentado intensamente a vida mundana durante sua juventude, "ardendo em desejos de me satisfazer em prazeres infernais", o que levou sua carne a apodrecer e sua beleza a definhar, pois buscava agradar mais os olhos dos homens do que os olhos de Deus. Sentia a necessidade de amar e ser amado, mas por ainda não ter encontrado o amor de Deus, entregava-se à " ação da carne ". A perfeição seria, para Santo Agostinho, que as relações de alma para alma fossem moderadas pela amizade, não sendo ofuscadas pela " lodosa concupiscência da carne e do borbulhar da juventude ". Não podia, contudo, distinguir "o amor sereno do prazer tenebroso. Um e outro ardiam confusamente em mim ; arrebatavam a minha débil idade pelos despenhadeiros das paixões e submergiam-me num abismo de vícios ". Em Confissões, Santo Agostinho penitencia-se diante de Deus por seu passado de devassidão. Mostra-se culpado, pois bastaria a ele seguir as Escrituras para praticar aquilo que é do agrado de Deus. " Eu é que, certamente, deveria com mais diligência prestar ouvidos ao som vindo de Vossas nuvens : 'Sofrerão as tribulações da carne. Eu, porém, perdoo-vos' (1Co 7:28). Ou ainda : 'É bom para o homem não tocar mulher alguma' (1Co 7:1); e 'o que não tem esposa, pensa nas coisas de Deus e como lhe há de agradar ; o que está unido em matrimônio pensa nas coisas do mundo e como há de agradar à esposa ' (1Co 7:32,33) Oxalá tivesse ouvido mais atentamente estas palavras ! Se tivesse vivido eunuco por amor do reino dos céus, esperaria agora, mais feliz, os Vossos abraços (Mt 19:12)". A sexualidade é, para Santo Agostinho, um sinal de como a humanidade degradou-se ao se dedicar mais à satisfação dos próprios prazeres e sentidos do que a servir a Deus. Um exemplo disso é a masturbação, como refere o filósofo: "a loucura deste prazer que a nossa degradação liberta de todo o freio me fez aceitar o cetro que empunhei com ambas as mãos !" O freio à vida luxuriosa seria o casamento, o qual configuraria o meio pelo qual a humanidade cumpriria a ordem divina de procriar, sem, contudo, obter o prazer carnal ; no casamento não há lugar para masturbação, sodomia, prostituição, adultério e luxúria. Ainda na narrativa de sua juventude, Santo Agostinho relembra quando seu pai o viu no banho e ficou jubiloso com a ereção do filho : " meu pai, durante o banho, vendo-me já a entrar na puberdade e revestido da adolescência inquieta, contou-o, todo alegre, a minha mãe, como se tal verificação o fizesse saltar de prazer com a idéia de ter netos ". Tinha a consciência de que seu corpo exalava sexualidade, pois "de todos os lados sentia o fogo de criminosos amores. (...) Era para mim mais doce amar e ser amado se podia gozar do corpo da pessoa amada. Deste modo, manchava com torpe concupiscência, aquela fonte de amizade. Embaciava sua pureza com o fumo infernal da luxúria ". Na maturidade, Santo Agostinho qualificaria sua experiência sexual como uma doença que "ulcerava sua alma ". A conversão ao Cristianismo não livrou o futuro Bispo de Hipona dos pensamentos impuros. Embora afirme que Deus permite o casamento como um meio de afastar o homem da luxúria, a opção pela castidade absoluta é um estado melhor. Santo Agostinho optou pela castidade, mas nas Confissões surpreende-se e clama a Deus a ajudá-lo a livrar-se dos pensamentos carnais que involuntariamente tem durante o sono. "Na minha memória vivem ainda as imagens de obscenidades que o hábito inveterado lá fixou. Quando, acordado, me vêm à mente, não têm forças ; porém, durante o sono, não só me arrastam ao deleite, mas até à aparência do consentimento e da ação. A ilusão da imagem possui tanto poder na minha alma e na minha carne, que, enquanto durmo, falsos fantasmas me persuadem a ações a que, acordado, nem sequer as realidades me podem persuadir ". O trecho é um embrião do ideal de castidade, em ações e pensamentos, almejado por Santo Agostinho. Aqui ele se angustia porque durante o sono, quando a razão não domina, seu corpo reage a sonhos eróticos ; não consegue a castidade absoluta em seus pensamentos e tem ereções involuntárias. Então suplica a Deus para " sarar todas as enfermidades da alma e extinguir os movimentos lascivos mesmo durante o sono ", de modo a não permitir que " cometa tais torpezas e depravações sob a ação de imagens animais, descendo até a lascívia carnal ; nem finalmente, de modo algum, nelas consinta". Fonte: AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona. Confissões. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1948.
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