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Sala História e Antropologia da
Sexualidade |
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Origens do Culto Fálico
Falicismo é o culto ao falo ou lingan (pênis), e ao yoni
(vulva). Desde a pré-história o falo possuí uma dimensão
sagrada, como o doador da vida, e a vulva como o seu receptor. O termo
falo deriva do grego phallós que é a representação
do órgão sexual masculino como símbolo de fertilidade
e força. Entre os gregos o falicismo estava presente nas celebrações
ao deus Dionísio e, entre os romanos, ao deus Baco. O falicismo,
no entanto, não é originário da Grécia, pois
há registros de símbolos fálicos em civilizações
mais antigas.
A celebração do sexo é tão antiga quanto a
história da humanidade. Nos registros arqueológicos de povos
primitivos há uma mistura de representações de ações
mágicas no mistério da criação e frágeis
associações do pênis ao poder reprodutor. Reverenciavam,
então, aquilo que não podiam compreender, mas que temiam
perder caso não fosse demonstrado o valor que merecia. Daí
surgem nas cavernas os primeiros desenhos e esculturas (há aproximadamente
25 mil anos) com representações de animais aos pares, de
búfalas e éguas prenhes, do pênis e da vulva. Os órgãos
sexuais masculinos e femininos eram freqüentemente representados
e, muitas vezes, em proporções exageradas como se o homem
primitivo atribuísse a eles a razão da perpetuação
do grupo. Posteriormente, a sistematização do culto fálico
leva aos rituais de fertilidade ainda hoje encontrados em todos os continentes.
Em épocas posteriores da Idade da Pedra, esculpiram-se estatuetas
de marfim e de pedra de mulheres nuas, obesas e com quadris e seios exagerados,
como uma representação da gravidez, da vida e da eterna
fertilidade. Este tipo de escultura ficou conhecido por vênus, acrescentando-se
ao termo o local onde foram encontrados. Também se gravaram vulvas
nas paredes das cavernas, assim como traços de homens com o pênis
ereto.
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| Representações femininas da fertilidade
(posteriormente conhecidas como vênus, ou deusas-mãe),
encontradas em várias regiões da Europa. Arte Paleolítica.
Fonte: http://www.arthistory.sbc.edu/imageswomen/ |
Os elementos sexuais faziam parte da concepção de mundo
do homem primitivo. Para ele, a Lua e a água eram femininas. O
fogo e o calor eram masculinos, e o frio feminino. O Sol era o macho gerador
da vida, a Terra era a fêmea que o recebia e dela brotavam os seres.
A Terra passou a ser a deusa-mãe; na Ásia Menor era considerada
o grande útero da natureza. Sobre isto Carl Jung escreveu que os
antigos e primitivos usavam os símbolos fálicos com grande
liberdade, não confundindo jamais o falo do símbolo ritual
com o pênis e a vulva. Durante a Antigüidade, o falo era um
maná criador, o extraordinariamente eficaz, a força fecunda
e restauradora que podia expressar-se também no touro, no asno,
na romã, no yoni, na montanha, no raio, na dança, na cópula
mágica nos campos, na menstruação, etc.
Quando o homem saiu das cavernas e se espalhou por outros ambientes levou
a tradição do falicismo. Encontravam-se símbolos
sexuais em montanhas e vales, árvores, pedras, serpentes, pássaros,
cavalos, frutos e flores, sobretudo se as formas destes se assemelhassem
ao pênis ou à vulva. Várias destas associações
ainda sobrevivem, como a serpente e o cisne, as rochas compridas que por
analogia estão simbolizadas nas chaminés, torres, obeliscos
e nos mais altos edifícios, e os alimentos considerados afrodisíacos
por lembrarem o formato dos órgãos sexuais.
Linguagem das Mãos
Os egípcios consideravam a mão um símbolo do poder
de geração do Sol e no mundo antigo usavam-se as mãos
e dedos para exprimir uma linguagem sexual. O dedo mínimo estendido
para o lado, com o polegar e os outros dedos dobrados para dentro, era
um símbolo fálico. Os polegares e os indicadores de ambas
as mãos, tocando-se, indicavam a vulva. Outro símbolo era
o indicador dobrado até encontrar o polegar e os demais dedos permanecerem
estendidos. As palmas das mãos juntas, os indicadores estendidos
para cima e os demais dedos entrelaçados, exprimiam a união
dos sexos.
A mão como símbolo fálico também existia nos
amuletos da Roma Antiga. Neles apareciam dois braços estendidos
amarrados e em um deles, no lugar da mão, havia um pênis,
e no outro, uma mão. Há duas formas desse tipo de símbolo
que ainda são muito conhecidas. A mais antiga tem o dedo médio
estendido, com o polegar e os outros dedos fechados; o dedo médio
representa o pênis e os dois dedos dobrados de cada lado representam
os testículos. A outra forma tem a mão fechada, mas o polegar
(pênis) se insere entre o médio e o indicador (vulva). Considerava-se
um insulto mostrar a mão nessa posição a alguém,
pois indicava que o insultado fazia um sexo “contra as leis da natureza”.
Este gesto era conhecido em latim como ficus; em francês, figue;
em inglês, fig. O figo era consagrado a Príapo, como agradecimento
à abundância e procriação. O gesto ficus, às
vezes chamado fica, por ser palavra do gênero feminino no latim
vulgar, persistiu durante toda a Idade Média, sobretudo na Europa
Central. Os italianos o designavam como fare la fica (fazer figa para
alguém), possivelmente pela semelhança do figo com a vulva.
No Brasil o amuleto conhecido por figa está associado à
proteção contra a inveja, doenças e perigos, ao favorecimento
da sorte e ao símbolo de fertilidade.
Totens, Monumentos e Obeliscos
Descobertas arqueológicas, nas ruínas da Babilônia,
Índia, China, Egito, Palestina, Grécia, centro e sul da
Europa, México, Américas Central e do Sul, evidenciam que
o sexo era cultuado nas civilizações primitivas e posteriores.
Nesses locais foram encontrados falos de grandes dimensões em bronze
ou pedra, amuletos, cruzes, objetos triangulares e moedas com simbolismo
fálico bastante evidente. Os maiores totens fálicos datam
da Idade do Bronze (2.500 a 4.000 a.C.). Foram encontrados na Córsega
e mediam entre 1,80 a 3 metros. Alguns reproduziam o formato peniano em
detalhes.
No Egito foram erigidos os obeliscos, altos monumentos de pedra de formatos
cônico ou quadrado, com ponta semelhante às pirâmides,
como o conhecido “A Agulha de Cleópatra” de 200 toneladas,
hoje em Londres.
CRUZES E TRIÂNGULOS
Cruzes de forma e material diferentes eram cultuadas pelos antigos. Na
Grécia, Dionísio e Apolo eram representados por uma forma
de cruz; em outros desenhos, Afrodite. As prostitutas da Índia
em certa época usavam uma cruz para significar o poder de dar a
vida. A cruz egípcia, o ankh, significava a “chave da vida”.
Esta cruz, em forma de T e encimada por um oval que lembrava a matriz
ou útero, representava a imortalidade.
A suástica (swastika), adotada pelos nazistas alemães,
em determinada época teve significação sexual. Sua
origem é do sânscrito svastika, que significa “ser
afortunado”. Se os braços da cruz se estendiam para a esquerda,
significava o sexo feminino; se para a direita, o sexo masculino. Muitas
formas simples e grosseiras de suásticas foram encontradas em antigas
ruínas na Europa, África e América. Em um antigo
ídolo de chumbo escavado em Tróia há uma suástica
gravada semelhante a uma vulva.
Desde os períodos paleolítico e neolítico, o triângulo
foi adotado como símbolo fálico; em traços simples
identificava os órgãos sexuais do homem e da mulher. Se
o ápice apontava para baixo, simbolizava a mulher; se para cima
ou para o lado, o homem. Quando superpostos, os dois triângulos
indicavam a união.
AMULETOS
Os romanos davam ao amuleto fálico o nome de fascinum; em francês
antigo ficou conhecido por fesne e passou a ser utilizado pendurado no
pescoço, na forma de uma medalha e trazia em uma face o relevo
dos dois órgãos sexuais, e na outra, uma cruz. Em outros
tipos de amuletos uma mulher aparece cavalgando um falo com duas pernas
de homem; ou um grande pênis é preso à figura de um
homem minúsculo.
Entre os romanos o falo era reverenciado na forma do deus Príapo.
O hábito de trazer figuras priápicas como amuletos contra
o mau-olhado e o azar – que inclui a perda da energia sexual –
se tornou comum, persistiu durante a Idade Média e ainda hoje são
encontradas.
Príapo no Culto
Fálico
No culto fálico ocupa um lugar privilegiado a figura de
Príapo, um deus menor de origem itifálica (com o pênis
ereto). Devido ao seu falo descomunal, atributo e característica
principal, é possível que na origem do mito houvesse
apenas o falo e, paulatinamente, a ele foram agregados outros elementos
de modo grotesco, formando um corpo deformado.
De acordo com a versão grega do mito, Príapo nasceu
de uma relação ocasional de Dionísio e Afrodite,
mas Hera, por seu ódio de madrasta em relação
a Dionísio e ciúmes de Afrodite usou seus poderes
para que o filho nascesse com grandes deformidades, dentre elas,
um falo de proporções enormes.
Afrodite, envergonhada de seu filho, mandou-o para o campo. Ali
ele tornou-se o terror dos maridos e se viu obrigado a fugir. Uma
peste começou a assolar os habitantes do local e eles acreditaram
ser isso um castigo, pelo mau tratamento que deram ao filho de Afrodite.
Por isso, o fizeram voltar e o tornaram objeto de veneração,
representando-o pela imagem do phallus e instituindo festas em sua
honra, nas quais o povo se entregava a todo tipo de atos sexuais.
Príapo tornou-se um deus campestre, protetor dos vinhedos,
do gado e da vegetação. Por ser filho de Dionísio
foi incluído em seu cortejo vivendo em harmonia com os demais
integrantes, como os silenos e os sátiros, cujos corpos eram
metade homem e metade animal e mantinham seus pênis sempre
eretos.
Por seu caráter campestre, Príapo era venerado ao
ar livre, sobre pedras ou colunas em jardins, bosques ou vinhedos.
A representação de sua figura em esculturas era freqüentemente
encontrada nas residências da Grécia, Roma e Pompéia.
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PEIXES E SERPENTES
Em muitas civilizações antigas o peixe tinha um significado
sexual de fertilidade e abundância. Entre os semitas, o hábito
de comer peixe estava vinculado também a uma antiga idéia
de que este alimento aumenta a potência sexual. Há também,
em desenhos e esculturas, uma associação do formato da vulva
à boca do peixe; e do formato alongado de algumas espécies,
ao pênis.
A serpente é um dos mais antigos símbolos sexuais e já
nesta condição aparece no Gênesis, como a imagem do
pecado original. É personagem recorrente nas mitologias hindu,
egípcia, grega, romana, chinesa indígena e africana. Era
considerada hermafrodita, assim como alguns dos primeiros deuses. Serpentes
vivas moravam nos antigos templos gregos, como o de Delfos consagrado
a Apolo por ter destruído Píton, a serpente-monstro. Nos
templos as serpentes eram alimentadas pela sacerdotisa-mor conhecida como
pitonisa.
A serpente é o falo como elemento de prazer e criação.
Neste sentido, o conceito tântrico kundalini designa uma força
vital situada na base da coluna e associada à sexualidade. Por
mudar de pele, a serpente é também um símbolo de
transformação e de força: a serpente se regenera
e tem um caráter telúrico e propriedades curativas, uma
das razões de estar representada no bastão de Esculápio.
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A serpente é também um emblema da água, está
imbuída da força sagrada do abismo e, por isso, conhece
os segredos do mundo interior. Assim, no Livro Sagrado dos Mortos, do
Egito antigo, todo o ventre da Terra é formado por serpentes. Por
sua vez, para os chineses, a serpente e o dragão são também
símbolos de umidade e fertilidade.
Falicismo Sagrado
A história do falicismo revela que sexo e religião sempre
mantiveram estreita relação. Muitos dos símbolos,
tidos como sexuais e outros como religiosos, possuem semelhanças.
A imagem do falo representou papel importante nas antigas cerimônias
religiosas do Egito, da China, do Japão, da Índia, da Grécia
e de Roma. Na Antigüidade foi construído um falo gigante com
100 m de altura coberto com ouro puro. Estátuas fálicas
de aproximadamente 60 m de altura montavam guarda no templo de Vênus
em Hierápolis. Os Mistérios de Elêusis, iniciação
a que todo ateniense aspirava, ligava os ritos de fertilidade (a semente
enterrada) à esperança de imortalidade.
Em vários rituais antigos o corpo nu era exposto. Quando um rio
transbordasse durante as chuvas, acreditava-se que se as mulheres expusessem
o corpo nu às nuvens negras, a chuva cessaria. Hoje, em algumas
tribos africanas, mulheres expõem sua nudez para atrair a chuva
no tempo de seca.
Durante as festas à deusa Ishtar, na Babilônia, preparavam-se
e comiam-se bolos com formas semelhantes aos órgãos sexuais
masculino e feminino. Na Fenícia, faziam-se bolos idênticos
em louvor aos deuses Baal e Astarte. No Egito, ocorriam procissões
em louvor ao falo de Osíris. Na França antiga, eram preparados
pães em formas fálicas para serem levados a festas e procissões.
Na Índia ainda existem templos a Shiva com oratórios em
homenagem ao falo. O xintoísmo, no Japão, ainda é
uma religião estreitamente ligada ao culto fálico.
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O festival de Líber, antiga divindade da frutificação
mais tarde identificada a Baco, se realizava na época do plantio.
Nesse dia o falo, como símbolo do deus, era levado pelos habitantes
aos campos e caminhos em torno de Roma, a fim de aumentar a colheita;
mel e óleo eram oferecidos aos deuses. Em Lavinium, levava-se um
falo à praça do mercado, onde as mulheres mais respeitadas
da cidade o coroavam com uma guirlanda de flores. Em outras festas, os
participantes utilizavam máscaras com pênis e as mulheres
adornavam-se com objetos fálicos colocados no púbis.
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A partir da ascensão do Cristianismo os símbolos pagãos
foram severamente perseguidos. Signos fálicos foram transferidos
à figura de Satanás, bem como as características
de deuses pagãos, como os chifres, a cauda e as patas de bode e
de cavalo; a serpente, associada ao pecado original e à perdição
do homem, representava os poderes de dissimulação e tentação
da mulher. O pênis, tão presente desde a arte primitiva até
os romanos, foi subitamente expurgado das telas e da escultura por mais
de cinco séculos. No entanto, o próprio Cristianismo adotou
outros símbolos de poder, energia, desejo e proteção,
como o formato de algumas cruzes, a vela, a espada, o bastão, a
pomba, as torres das igrejas e os sinos.
Fontes:
Abarbanel, A.; Wilbur, G. – Falicismo e Simbolismo Sexual. In:
Enciclopédia do Comportamento Sexual. Vol. III. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1968.
Daniélou, A. – Phallus : Sacred Symbol of Male Creative Power.
Vermont, Inner Traditions, 1995.
Cartele, E. M. – Priapeos, Grafitos Amatorios Pompeyanos: Velada
de la Fiesta de Vénus. Madrid, Gredos, 1981.
Maurano, D. – Desdobramentos da “Face Oculta Do Amor”
entre Freud, Lacan e Nietzsche. In: http://www.corpofreudiano.com.br/txt22.htm.
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