Sala História e Antropologia da Sexualidade

Origem e Evolução do Preservativo

Etimologia

Na etimologia da língua portuguesa, o vocábulo preservativo é formado pelo particípio do verbo preservar, que por sua vez advém de servo, verbo latino que significa salvar, assegurar, conservar ou preservar.

Entre nós o preservativo é conhecido também por camisinha e camisa-de-vênus, esta em alusão à proteção desejada contra as “doenças venéreas” (expressão em desuso) a que os homens estão sujeitos ao se entregarem aos prazeres de Vênus, a deusa do Amor.

Em menor medida utiliza-se no Brasil o termo condom, porém em vários países este é o termo mais comum: condom (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Austrália, África do Sul, Tanzânia e Irlanda), condón (Argentina, Chile, Espanha e Colômbia), condoom (Bélgica e Holanda), kondom (Dinamarca, Croácia, Noruega, República Tcheca e Áustria), kondomi (Finlândia) e kondómu (Japão).

Não existe um consenso quanto à origem do termo condom. Etimologistas sustentam que condom seria derivado do vocábulo latino condus, que significa receptáculo e recipiente, ou condere que significa ocultar ou proteger. Já condus teria derivado do persa kendü ou kondü, que significa "vaso comprido de armazenamento, feito do intestino de um animal".
Outra versão bastante difundida é a de que condom seria o antropônimo de um hipotético Dr. Condom que serviu na corte do rei Charles II, na Inglaterra, e teria criado um dispositivo peniano para assegurar a saúde do monarca que se relacionava intensamente com suas inúmeras cortesãs. Não existem registros que confirmem a existência do Dr. Condom e por isso essa versão é fortemente contestada entre os historiadores.

Da Antigüidade ao Século XXI

Há cerca de 3.000 anos os egípcios encobriam o pênis com capas de linho, peles e materiais vegetais. Alguns antropólogos sustentam que estas capas visavam a proteção contra picadas de insetos e outras agressões do meio ambiente. Outros antropólogos vêem estas capas masculinas como uma proteção contra as enfermidades sexuais, uma vez que as mulheres egípcias utilizavam meios contraceptivos rudimentares e ungüentos vaginais o que indica algum conhecimento do mecanismo sexual e da transmissão de doenças.

Na mitologia grega é referido pela primeira vez o uso do preservativo feminino, na história de Minos (filho de Zeus e Europa) e Prócris. Segundo o mito, Minos era o rei de Creta (1.200 a.C.) casado com Pasifae que puniu o marido por relacionar-se com várias mulheres. Pasifae utilizou um encantamento que fazia com que da ejaculação de Minos saíssem serpentes e escorpiões toda vez que se relacionasse com uma mulher que não a esposa. As amantes morriam, mas Pasifae era imune ao feitiço aplicado a Minos. Porém o rei tornou-se incapaz de procriar. Dentre suas amantes, Minos acabou se apaixonando por Prócris e esta, para evitar a morte ao relacionar-se com o rei, introduziu em sua vagina uma bexiga de cabra embebida em uma poção oferecida por Cerne. As serpentes e escorpiões ficaram aprisionados na bexiga de cabra e Minos voltou a procriar.

Na China empregava-se o papel de arroz embebido em óleo para conferir-lhe resistência. O dispositivo envolvia o pênis e, ao contrário da finalidade esperada no Ocidente, além de prevenir as doenças sexualmente transmissíveis visava também a contracepção.

Durante os séculos II a.C a III d.C os soldados romanos que expandiam o Império pela Europa, Ásia e África usavam preservativos de intestino de cordeiro e bexiga de cabra para se prevenirem das doenças causadas pela deusa Vênus, as chamadas “doenças venéreas”.

Os registros egípcios, gregos e romanos não aludem ao preservativo como um contraceptivo para o homem, mas como um meio para não adoecer, devido ao contato sexual. As medidas contraceptivas estavam a cargo da mulher, pelo uso de plantas maceradas, raízes, beberagens e tampões improvisados.

Desde a queda do Império Romano as referências ao uso de preservativos desapareceram até o século XVI, quando ressurgiram na Europa.


Ilustração. Gabriel Fallopius (1523-1562). Médico e anatomista italiano, identificou as tubas uterinas que por muito tempo foram denominadas “trompas de Falópio”. Devido à epidemia de sífilis na Europa, testou capas de linho para o pênis a fim de refrear a expansão da doença. Fonte: www.zol.be/Vesalius/Biography/body_biography.html.

No século XVI a Europa sofreu uma epidemia de sífilis e gonorréia. A ausência de medicamentos eficazes e as péssimas condições sanitárias resultaram em grande índice de mortalidade e seqüelas aos descendentes. O médico italiano Gabriel Fallopius (1523-1562), publicou De Morbo Gallico (A Doença Francesa), no qual descreveu o curso da sífilis e recomendou o uso de capas de linho medicadas para enfrentar a doença. Fallopius testou o preservativo em 1.100 homens e nenhum foi infectado pela sífilis. Foi o primeiro ensaio médico com medidas profiláticas para combater uma doença sexualmente transmissível. Cada preservativo era confeccionado manualmente de acordo com as medidas do cliente e a um custo bastante elevado. Inicialmente o dispositivo cobria apenas a glande e um laço o prendia ao corpo do pênis.

Em 1597 Hercules Saxonia, da Universidade de Pádua, descreveu em Luis Venerae Perfectissimus Tractarus um preservativo de linho medicado com um preparado químico. Este dispositivo cobria o corpo do pênis.

A partir do reinado de Charles II na Inglaterra (1660-85), surgiu a versão, hoje contestada pelos historiadores, de que o médico da Corte chamado Condom, Quandam ou Condam, teria criado um dispositivo peniano para o rei, dado o grande número de filhos ilegítimos gerados por suas cortesãs. Embora não existam provas da existência do médico, é certo que Charles II utilizava preservativos fabricados a partir de intestino de cordeiro, tal como faziam os antigos soldados romanos.


Preservativo de intestino de cordeiro. Cerca de 1700. Fonte: http://www.friendtofriend.org/chat/CondomHistory.html

Os intestinos de cordeiro ou carneiro eram molhados em água e solventes, e raspava-se a superfície que posteriormente era submetida a vapores de enxofre. Novamente lavada e seca, a membrana era cortada em um tamanho específico.


Preservativo de linho. Século XVIII. Fonte:
http://www.smile-condoms.com/francais/histoire/histoire.htm

Nas Lettres de Madame de Sévigné (1626-1696), marquesa e escritora francesa cuja obra moral influenciou a aristocracia até o século XIX, havia uma recomendação a sua filha quanto ao uso “dessas tripas de rês que os homens colocam antes do coito e que são armaduras contra o gozo e teia de aranha contra a doença”. Posteriormente, no período vitoriano, “armadura” era sinônimo de preservativo.


Preservativo estampado de intestino de cordeiro.
Fim do século XVIII. Fonte:
http://www.smile-condoms.com/francais/histoire/histoire.htm

No século XVIII surgiu em Londres a primeira loja especializada na manufatura de preservativos que atendia exclusivamente a aristocracia européia. Eram feitos sob medida com intestino de cordeiro ou carneiro, reutilizáveis, aromatizados com essências florais e embalados em caixa de cristal. Os bordéis de luxo da França, Itália e Espanha começavam a oferecer o dispositivo a seus clientes.


Pintura. Ritratto di Giacomo Casanova. Francesco Casanova. 1750. Fonte: Musei Civici Veneziani.

Giacomo Casanova (1725-1798) que inseria a metade de um limão ou laranja na vagina de suas amantes a fim de evitar a gravidez (a fruta servia como um tampão e o ácido cítrico neutralizava os espermatozóides), também utilizou preservativos de linho conforme relata nas memórias Histoire de ma Vie, os quais denominava sobrecasaca inglesa, roupa tranqüilizante, gorro de segurança e estojo preservativo.


Ilustração. Marquês de Sade. Final do século XVIII. Fonte: http://www.cofc.edu/desade/m.deSade.html

Em 1795 o Marquês de Sade faz referência ao uso do condom como contraceptivo, na obra A Filosofia da Alcova: “outras [mulheres] obrigam seus parceiros a se servir de um pequeno saco de pele de Vênus, comumente denominado condom, no qual a semente escoa, sem risco de atingir seu objetivo”.


Ilustração. A fim de certificar que os preservativos estavam em condição de uso, era comum inflá-los para verificar se havia furos. Século XVIII. Fonte:
http://www.world-sex-records.com/sex-350.htm.

É no Classical Dictionary of the Vulgar Tongue, publicado em Londres em 1785 que o vocábulo condom aparece pela primeira vez definido como “tripa seca de cordeiro, vestida por homens no ato sexual, para prevenir doenças venéreas”.

No Japão, em meados de 1800, foi utilizado um preservativo de couro bem fino chamado kawagata ou kyotai.

Em 1844, o norte-americano Charles Goodyear e o inglês Thomas Hancock aperfeiçoaram o método de vulcanização da borracha que permite maior elasticidade e resistência a esse material. Cerca de 1870 Goodyear começou a fabricação em massa de preservativos de borracha que eram laváveis e reutilizáveis até se romperem, o que ocorria em três a quatro meses. Eram porém bastante espessos. freqüentemente apresentavam furos, possuíam pequena aderência ao pênis, irregularidades na textura e alto custo.

O final do século XIX foi marcado pela rígida moral vitoriana e a disseminação do uso do preservativo passou por grande resistência. Se por um lado haviam cientistas que aprovavam esse uso, outros, com grande influência política e moral, argumentavam que uma barreira física que impedisse a entrada do sêmen na vagina causaria danos irreversíveis à saúde do homem e da mulher. Alertavam os opositores do preservativo que seus usuários estariam expostos à esterilidade, ninfomania, histeria, câncer, fadiga, transtornos mentais de toda ordem e até à dissolução dos valores sociais. O preservativo ganhou então associação à vida libertina, às “doenças venéreas” e à prostituição, o que perdura em alguns meios até hoje.

A partir dessas pressões, vários países proibiram a comercialização do preservativo, nos séculos XIX e início do XX. Nos Estados Unidos entrou em vigência a Lei Comstock (1873) que proibia o envio ou recebimento pelo correio de materiais obscenos, imorais e lascivos, incluindo os preservativos ou sua publicidade. Foram confiscados cerca de 65.000 preservativos e vários médicos acabaram processados, sob risco de reclusão por até 10 anos. Em 1865, por exemplo, o estado de Connecticut revogou uma lei que proibia o uso de preservativos entre parceiros casados.

Em alguns países em que os preservativos eram tolerados, nem sempre a motivação residia no controle das doenças sexualmente transmissíveis e na contracepção para resguardar a saúde da mulher. O início do século XX viu florescer as doutrinas neo-malthusiana e darwinista que defendiam a eugenia, isto é, uma seleção racional faria sobreviver apenas os mais aptos, fortes, sãos e sem propensão aos vícios. Foi a partir da concepção eugênica que o médico Augusto Forel (1905) defendeu o uso de preservativos pois “permitem também que infelizes criaturas patológicas, cujo dever social e moral é de não ter filhos, satisfaçam as suas necessidades sexuais sem o pesadelo de povoar o mundo com miseráveis mostrengos, idiotas ou inválidos”.

Ao ser deflagrada a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) os Estados Unidos ainda viviam intensa campanha contra o uso de preservativos e a tropa era incentivada à abstinência e à castidade. Os países aliados, no entanto, liberaram os preservativos entre os soldados. Enquanto a incidência de doenças sexualmente transmissíveis diminuía entre os soldados que utilizaram preservativos, os hospitais norte-americanos registraram a média de 766 soldados infectados em cada mil que buscavam tratamento por ferimentos de guerra.

Avanços nas pesquisas das propriedades químicas da borracha, a partir de experimento realizado em 1921 por Alfred Trojan, resultaram na obtenção do látex em 1930. Os preservativos de látex eram mais resistentes, finos, elásticos e apresentavam menos irregularidades como furos e rasgos. Em 1935 somente nos Estados Unidos foram produzidos mais de um milhão e meio de preservativos de látex, embora a tônica fosse a prevenção da sífilis e da gonorréia e não um método contraceptivo.


Ilustração. Preservativos de borracha. 1908. Fonte: http://www.smile-condoms.com/francais/histoire/ancetres.htm

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) os preservativos foram fartamente distribuídos aos soldados, incluindo os norte-americanos. O látex permitia a fabricação do produto em larga escala e a custo bem menor. As autoridades sanitárias dos Estados Unidos ponderavam que os gastos com a saúde para recuperar soldados com doenças sexualmente transmissíveis eram infinitamente superiores a de um simples dispositivo de prevenção.

Em 1954, Gregory Pincus desenvolveu a pílula anticoncepcional e nos anos 60 irrompeu a revolução sexual. A sífilis e a gonorréia passaram a ser tratadas com antibióticos e o mercado de preservativos sofreu forte retração.

A partir de 1980, com o surgimento da Aids, houve um grande aumento no consumo mundial de preservativos por ser o único meio eficaz de prevenir o contágio.

Os fabricantes criaram novas texturas, cores, sabores, aromas e tamanhos para atrair o consumidor. Foram adicionados lubrificantes e espermicidas para o conforto do ato sexual e maior segurança contra a gravidez indesejada. Alguns preservativos com propriedades especiais (fosforescentes, com formatos de animais ou frutas, com texturas ou comestíveis) não são contraceptivos nem protegem contra doenças sexualmente transmissíveis e é necessário utilizar um preservativo comum por baixo deles.

O poliuretano passou a ser usado na fabricação do preservativo feminino em 1992 e no masculino em 1994. O material é mais resistente que o látex e melhora a sensibilidade do pênis em atrito com vagina, ânus ou boca.

Em pequena escala ainda são fabricados nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, preservativos de intestino de cordeiro. São destinados a consumidores que tenham alergia ao látex e ao poliuretano, que os utilizem por fetiche ou que os preferem pela sensibilidade sobre o pênis.

Embora persistam campanhas em vários países do mundo em favor do preservativo como proteção ao HIV e às outras doenças sexualmente transmissíveis, um novo fenômeno tornou a retrair o mercado: desde 2000 o sexo virtual pela Internet reduziu o consumo de preservativos no Japão, Estados Unidos e Alemanha. De acordo com o Ministério da Saúde do Japão, na década de 80 foram comercializadas 743 milhões de unidades no país; a partir do ano 2000 houve uma queda de 43%.


Preservativo atual de látex.

No Brasil, o Ministério da Saúde prevê a distribuição gratuita de 700 milhões de preservativos masculinos em 2005 e venda de outros 350 milhões em farmácias e supermercados. Já o elevado custo dos preservativos femininos e a dificuldade de aceitação pela população ainda resultam em distribuição bastante restrita.

Fontes:

Canellas, P.R.B.; Mendes, A.L. – Preservativo: Ontem e Hoje. DST: J Bras Doenças Sex Transm. 14(4): 3, 2000.

Forel, A. – A Questão Sexual. São Paulo, Cia Editora Nacional, 1933.

Friedman, D. M. – Uma Mente Própria: a História Cultural do Pênis. Rio de Janeiro, Objetiva, 2002.

Potts, M.; Campbell, M. – History of Contraception. Ginecology and Obstetrics. 6(8), 2002.

Sade, Marquês de – A Filosofia na Alcova. São Paulo, Círculo do Livro, 1989.

Histoire des Préservatifs. Em: http://www.smile-condoms.com/francais/histoire/histoire.htm

Prevenção. Em: http://www.aids.gov.br/

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