Sala História e Antropologia da Sexualidade
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Boto Cor-de-Rosa

Um guerreiro indígena era muito habilidoso, astuto e forte. O deus Tupã, tomado por inveja dos atributos do guerreiro mortal, transforma-o em cetáceo e o condena a viver nos rios e lagos da Amazônia. A partir de então este guerreiro passa a ser conhecido como boto-cor-de-rosa. Embora transformado em peixe, ao boto o deus Tupã deixou qualidades atraentes e sedutoras.

Nas noites de lua cheia, o boto sai dos rios e transforma-se em homem, retornando às águas ao amanhecer. Vai à procura de mulheres que vivem às margens dos rios e exerce tão grande fascínio por sua beleza, alegria e virilidade, que nenhuma resiste, seja jovem ou madura, solteira ou casada. Todas as mulheres que amam o boto engravidam e são abandonadas, por isso é considerado o pai de todos os filhos de origem desconhecida nas regiões ribeirinhas.

O boto gosta de dançar, beber, conversar e brincar. Procura ir a festas, onde há maior probabilidade para suas conquistas, mas também vira canoas e investe em mulheres que tomam banho nas margens dos rios, sobretudo se estiverem menstruadas. Veste-se de branco e usa sempre um chapéu para esconder o orifício na testa por onde respira, em sua condição de peixe.


Boto com filhote.
Fonte: International Society for the Preservation of
the Tropical Rainforest (www.isptr-pard.org).

Também conhecido por golfinho do Amazonas o boto (Inia geoffrensis) corre risco de extinção devido à pesca predatória. A lenda de origem indígena e que vem sendo adaptada até hoje, motiva a caça ao boto (macho e fêmea) para que seus órgãos genitais sejam extirpados e usados em magia e simpatia para conquistar ou dominar o ser amado. Os olhos também são utilizados como amuleto para uma vida sexual satisfatória e para tornar uma pessoa irresistivelmente atraente e sedutora.

Iemanjá ( Versão 1)

Iemanjá ( ou Yemonjá) era filha de Olokun deusa dos oceanos . Casou-se com Olofim-Odudua., com quem teve dez filhos que se tornaram orixás . De tanto amamentar os filhos , seus seios ficaram imensos .

A vida com o marido era infeliz e Iemanjá decidiu fugir para o oeste , em Abeokutá. Lá vivia o rei Okere, rei de Saki, que se encantou por Iemanjá e a pediu em casamento . Ela aceitou a proposta , mas impôs a condição de que o marido jamais ridicularizasse o tamanho de seus seios . Okere concordou e por muito tempo tratou-a com respeito e carinho , até o dia em que chegou bêbado em casa e insultou Iemanjá, debochando do tamanho e da forma de seus seios . Ela ficou magoada e ofendida e fugiu.

Antes do casamento , Olokun havia presenteado Iemanjá com uma garrafa que possuía encantamentos para proteção . Enquanto fugia de Okere, Iemanjá caiu e a garrafa partiu-se. Da garrafa nasceu um rio, cujas águas levaram Iemanjá em direção ao mar , residência de sua mãe . Para impedir a fuga de Iemanjá , obstruindo seu caminho , Okere transformou-se em montanha . Impedida de seguir seu destino, Iemanjá pediu ajuda ao mais poderoso de seus filhos , Xangô . Este orixá do fogo lançou um raio que fez partir a montanha em duas e o rio de Iemanjá pode atravessar, seguindo até o mar , onde a orixá permaneceu e nunca mais retornou à terra .

Iemanjá ( Versão 2)

Os orixás Obatalá e Oduduwá se casaram e tiveram dois filhos : Iemanjá (representante do mar ) e Aganju (representante da terra ). Iemanjá e Aganju se casaram e tiveram um filho de nome Orungã (representante do ar ). Ao crescer , Orungã passou a nutrir um amor incestuoso pela mãe . Certa vez , o filho raptou e violentou a mãe . Iemanjá desesperou-se e desvencilhou-se de Orungã. O filho começou a perseguí-la e quando estava perto de alcançá-la, Iemanjá caiu e desmaiou.

Na queda , os seios de Iemanjá se romperam e deles saíram dois grandes rios que deram origem aos oceanos . E de seu ventre nasceram os Orixás que governam o mundo : Exu , Ogum, Xangô , Iansã, Ossain, Oxossi, Obá, Oxum , Dadá, Olocum, Oloxá, Okô, Okê, Ajê Xalugá, Orum e Oxu.

1 Representação antropomórfica de Iemanjá no Brasil. Fonte : http://www. ilarioba.tripod.com/ orixas.htm

2 Representação antropomórfica de Iemanjá no Caribe. Fonte : http://www.geocities.yahoo.com.br/ orixasbr/ mural/mural.html

O nome Iemanjá é uma adaptação para o português dos termos Yèyé Omo Ejá , que em iorubá significa " mãe cujos filhos são peixes ". É também conhecida como Janaína, Oloxum, Inaê e Rainha dos Mares . No sincretismo religioso é associada à Nossa Senhora da Conceição e à Nossa Senhora dos Navegantes.

A origem mítica de Iemanjá reside na crença dos antigos africanos de que forças sobrenaturais e espíritos agiam de modo impessoal ou corporificado nos fenômenos da natureza . Tais forças passaram a ser cultuadas como divindades , conhecidas como orixás , que teriam o poder de governar a chuva , o fogo , a terra , o raio , a caça , a guerra , as montanhas , os oceanos, os rios e as florestas . Iemanjá é a senhora das águas e protetora dos pescadores ; representada por seios volumosos e ventre proeminente é o arquétipo da maternidade e da fertilidade.

Yara

Bela e jovem mulher , Yara costumeiramente banhava-se nos igarapés e beiras de rios da Amazônia. Seu corpo era admirado de modo embevecido pelos homens da tribo , porém Yara não permitia a nenhum deles se aproximar , além de tratar com indiferença as tentativas que lhe faziam de enamoramento.

Certo dia , enquanto se deleitava no igarapé , ouviu vozes assustadoras que falavam uma língua estranha e logo percebeu que não eram os companheiros de sua tribo . Viu que eram homens brancos , vestidos com pesadas roupas e gestos agressivos . Nos olhares desses homens Yara pressentiu o perigo : não estavam embevecidos perante sua figura , mas extraordinariamente excitados.

Yara tentou fugir , porém mãos numerosas a seguraram e torturaram. Finalmente todos a violaram. Devido à violência sofrida, Yara desmaiou. Supondo que estava morta , os homens brancos a jogaram no rio e desapareceram.

Ao receber o corpo inerte e ferido o Espírito das Águas que habitava aquele e todos os rios e igarapés , se apiedou de Yara e devolveu-lhe a energia e a beleza . Cuidou também que , para nunca mais ser violada, seu corpo da cintura para baixo fosse transformado em cauda de peixe e da cintura para cima tivesse uma beleza tal que atrairia todo e qualquer homem para seus braços .

Yara passou a viver nas águas , revelando apenas a parte de cima de seu corpo . Sua beleza e o poder de seu canto atraem os ribeirinhos e os pescadores que , uma vez seduzidos, são agarrados pelos potentes braços de Yara e levados para as profundezas das águas onde se afogam.

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Os primeiros registros da lenda de Yara ( em tupi , mãe-d´ água ) datam dos séculos XVI e XVII, a partir de crônicas dos colonizadores portugueses. Nessas narrativas , o ser encantado era um homem , o Ipupiara, que devorava pescadores e os levava para o fundo dos rios . No século XVIII, a lenda se solidifica na versão hoje conhecida da virginal jovem Yara que sofre uma violência de gênero . A partir daí a jovem não tem mais condições de obter prazer em relações sexuais , segundo a lenda, porque metade de seu corpo foi despersonalizada de humano para peixe ( ou numa leitura contemporânea Yara anulou a região do corpo que atraiu a cobiça dos violadores), e se vinga daqueles que se encantam pela parte do corpo que se mostra sobre as águas .

A energia vital da água e os seres fantásticos que nela habitam são temas comuns na mitologia indígena da Amazônia, porém não são encontradas entidades com o perfil punitivo , vingativo e libidinoso como o de Yara. Os habitantes das águas são os protetores da vida , os que provêm alimentos para os peixes e a sobrevivência dos ribeirinhos . A protetora das águas é bondosa , maternal e fonte de vida , nunca de morte .

De acordo com a historiografia da região amazônica , a versão que se firmou da lenda de Yara foi trazida pelos colonizadores portugueses que sincretizaram seus próprios mitos oriundos das forças incontroláveis das águas . Assim , Yara é a Sereia (portuguesa), Sirena (espanhola), Náiade ( grega ), Ondina ( nórdica ), Loreley (alemã), Kianda e Yemanjá (africanas) - seres aquáticos femininos de várias culturas - assimilada no imaginário caboclo . Yara é a transposição da mitologia dos navegadores europeus que conheciam as sereias ou ninfas ( parte humana , parte animal ) por meio de Homero, Heródoto, Virgílio e Camões. Elas invariavelmente seduziam os homens com sua beleza e canto e os levavam à morte nas profundezas das águas .

As Sereias em Homero

Escrita entre os séculos VIII e IV a.C., a Odisséia narra as aventuras do herói Ulisses, a partir do regresso de Tróia ao seu reino em Ítaca.

Ulisses teve que superar muitos desafios e perigos , dentre eles , passar com seu navio pela Ilha das Sereias sem naufragar .

Circe, a filha do Sol , advertiu Ulisses que, para poder atravessar com segurança a Ilha das Sereias, deveria instruir seus homens a preencher os ouvidos com cera e o próprio herói ser amarrado ao mastro do navio, para não cederem aos cantos de sedução emitidos pelas ninfas marinhas .

Ulisses seguiu as instruções . O poder de tentação das sereias era tanto que Ulisses, o único que podia ouvi-las, suplicou a seus marinheiros que o libertassem do mastro para lançar-se ao mar . Seus homens haviam recebido ordens de Ulisses para que não o soltassem, não importava o quanto lhes suplicasse. Assim fizeram e conseguiram sobreviver .

Esta é a versão primordial do mito dos seres femininos fantásticos que habitam as águas e seduzem com beleza , canto e promessa de riqueza os homens que deles se aproximam.

Pintura em ânfora grega . Ulisses e as Sereias . Museu Britânico , Londres. 490 a.C.

 

Fonte :

Verger, P. - Notas sobre o Culto aos Orixás e Voduns. São Paulo, Edusp, 1999.

http://www.abrasoffa.org.br/folclore/lendas/iara.htm

Cascudo , L.C. - Geografia dos Mitos Brasileiros . São Paulo, Global , 2002.

 

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