Sala sedução, prazer e erotismo

Fantasias Sexuais


Gravura. Martial. Epigrammes (Planche XI). Desenho de Paul Avril para a obra Manuel d´Erotologie Classique, de Friedrich-Karl Forberg. 1906.

Uma das formas mais comuns de homens e mulheres exercerem a sexualidade é se imaginarem como protagonistas ou espectadores de um cenário erótico. O uso da imaginação ou as lembranças de experiências prazerosas são aditivos na vida sexual dos indivíduos.
Os pensamentos e as imagens de conteúdo sexual que permitem às pessoas sensações prazerosas são as fantasias sexuais. São reais em nossas mentes, pois o corpo reage a elas no desejo, na excitação ou no orgasmo, mas nem sempre são vividas na prática por razões que veremos adiante. As fantasias sexuais estimulam o cérebro para o sexo, e as fantasias são a forma com que o cérebro avisa que estamos prontos para o sexo.
Por residir na imaginação, não há limites para a fantasia. Tudo é permitido e por meio da fantasia os indivíduos podem ser e fazer tudo (em pensamento), até o que não fazem no cotidiano da vida sexual. Provam-se sentimentos, experiências e desejos que socialmente podem ser proibidos, mas que se liberam na fantasia. Há quem afirme não possuir fantasias e sentir que sua vida sexual é satisfatória, mas o provável é que exista uma repressão inconsciente que confunde pensar com realizar. Já outros possuem fantasias que lhes permitem viver a sexualidade em sua plenitude, guardando o que imaginam em seu íntimo ou compartilhando com o(a) parceiro(a).
As fantasias sexuais atuam como fonte de autoconhecimento, crescimento pessoal, percepção corporal, criatividade, diversificação das práticas sexuais e tema para brincadeiras eróticas. A partir delas podemos compreender muitas de nossas atitudes relacionadas à sexualidade e confrontar o sistema de valores comportamentais que são impostos pela sociedade na qual estamos inseridos. Por exemplo, indivíduos homofóbicos que fantasiam relacionar-se com um parceiro do mesmo sexo, não revelam esta fantasia para outra pessoa, pois fora do contexto da relação sexual há o temor do questionamento da própria sexualidade e de seu sistema de valores. A fantasia, porém, não pode ser facilmente erradicada da mente e embora existam pessoas que sintam culpa ou vergonha daquilo que pensam enquanto se excitam, a imagem erótica se repete por proporcionar prazer.

A Dificuldade de Falar sobre as Fantasias

Homens e mulheres possuem fantasias em igual medida, mas poucas são as pessoas que as revelam. Isto ocorre pelas seguintes razões:

• por considerarem que a fantasia é estritamente íntima e faz parte da preservação da individualidade;

• por considerarem que a fantasia pode chocar ou magoar o parceiro, ou confrontar valores culturais e religiosos (fantasias que envolvem múltiplos parceiros, relações forçadas, homossexualidade e sadomasoquismo);

• por associar uma das fantasias mais comuns, que é a de se relacionar com outra pessoa durante o ato sexual, à infidelidade e causar ciúme ao parceiro ou parceira;

• pela falta de diálogo entre os parceiros sobre o que gostam nas práticas sexuais;

• por desejarem realizar a fantasia e não disporem dos meios necessários;

• por acreditarem que revelar as fantasias é evidência de que a vida sexual está insatisfatória;

• pela insegurança de que ao revelar ou praticar a fantasia, haverá um desgaste do interesse sexual que é alimentado por determinada fantasia;

• por estarem expostos à herança moralista que qualifica as fantasias eróticas como imorais, doentias e pecaminosas;

• porque as fantasias extrapolam os limites do modelo de comportamento sexual predominante de relações heterossexuais, coitais, genitais e monogâmicas.

Por viver em sociedade com normas de comportamento, é comum que muitos indivíduos procurem reprimir a imaginação de práticas mal vistas pelo corpo social (mesmo que não pretendam realizá-las), como a violação, o incesto, o sadomasoquismo, a homossexualidade, a humilhação, a urofilia, o fetichismo, etc. Esta auto-repressão pode gerar culpa e ansiedade que inibe o ato sexual pela preocupação de impedir que tais pensamentos aflorem.

Importância da Fantasia na Vida Sexual

As fantasias podem surgir em nossas mentes sob a forma de pensamentos fugazes e involuntários como a lembrança da cena de um filme, a letra de uma música, as palavras de um livro, a foto de uma revista, uma página da Internet ou uma experiência sexual do passado. Pode ser também a imaginação de uma história erótica com princípio, meio e fim. É comum pensarmos em celebridades, vizinhos e amigos que nos atraem, mas com os quais nunca nos relacionaremos sexualmente. Ademais das fantasias que surgem de modo involuntário, há aquelas que os indivíduos criam voluntariamente ou aperfeiçoam a partir de antigas fantasias involuntárias por terem sido bastante prazerosas e enriquecerem a resposta sexual.

A fantasia é saudável à vida sexual, pois permite experimentarmos de tudo em nossa imaginação, sem nenhum compromisso com a realidade objetiva. No universo da fantasia não há divisões entre tolo e bizarro, imoral e moral, pudico e obsceno; pode-se pensar em diversos temas para alimentar a motivação sexual.

A presença de fantasias na vida sexual permite que homens e mulheres:

• iniciem ou aumentem as sensações de prazer durante a excitação até o orgasmo, seja na relação sexual ou na masturbação;

• revitalizem a vida sexual do casal que com o passar do tempo pode tornar-se monótona e desinteressante;

• experimentem em pensamento práticas sexuais que gostariam que se tornassem realidade e que, talvez, poderão acontecer;

• liberem tensões e inibições, aumentem a lubrificação vaginal e prolonguem a ereção;

• expressem os desejos sexuais e sentimentos para si mesmos e para os parceiros;

• se liberem de preconceitos e tabus e vivam a sexualidade de maneira franca e em plenitude;

• pratiquem as fantasias com parceiros que também gostariam de experimentá-las, aumentando a cumplicidade e confiança um no outro.

Importância da Fantasia na Vida Sexual

Nem sempre os indivíduos desejam levar à prática suas fantasias ou revelá-las. Enquanto uns consideram altamente erótico mantê-las apenas na imaginação, outros procuram realizá-las. E muitas pessoas desejam realizar as fantasias com o parceiro atual. O que determina a realização ou não da fantasia é o benefício que resultará no exercício da sexualidade saudável de cada parceiro

Pessoas que desejam realizar as fantasias mas estão sem parceiro(a), ou têm parceiro (a) com o(a) qual não podem ou não querem realizá-las, freqüentemente recorrem aos serviços de sexo pago, aos classificados de revistas eróticas, aos grupos de pessoas com os mesmos interesses e à busca na Internet. Dentre as fantasias mais comuns nestes casos estão: o fetiche por pés, manter relações sexuais com duas mulheres ou dois homens ao mesmo tempo, busca por pessoas bem mais novas ou bem mais velhas, ser o dominador ou o escravo em prática sadomasoquista, relações sexuais com pessoas fantasiadas com uniformes (bombeiro, policial, militar, operário, enfermeira, comissária), relacionar-se com parceiro(a) do mesmo sexo, etc.

Tipos de Fantasias mais Freqüentes

Há fantasias que se produzem espontaneamente e são revividas várias vezes porque resultaram em experiência de grande prazer. Outras são involuntárias e o objeto erótico imaginado varia com o tempo.

Em geral, o conteúdo sexual das fantasias abrange três grandes grupos:

1. a imaginação de algo que não vivemos, mas que gostaríamos de ter vivido (um relacionamento com outra pessoa que não o(a) parceiro(a), uma prática sexual sugerida que por alguma circunstância deixamos de realizar no passado, um encontro especialmente romântico, fazer sexo num barco, no elevador, na montanha ou na neve, cobrir o corpo com chocolate ou champanhe, etc.);

2. a lembrança de algo que nos marcou e excitou e que gostaríamos de viver novamente com a mesma intensidade (um olhar sedutor, uma carícia, um beijo, uma posição sexual, um cheiro, uma brincadeira erótica, uma experiência sadomasoquista, espiar outras pessoas fazendo sexo);

3. a imaginação de algo que não vivemos e dificilmente teremos a intenção de levar à prática por implicar em conflito com valores morais, negativa do parceiro, conotação de perversão ou violência (sexo em grupo, sexo em lugares de risco ou em público, forçar alguém ou ser forçado a fazer sexo, assumir o papel de prostituto(a), sexo com crianças, relações com parceiros do mesmo sexo, doloroso, fantasias em que somos submetidos e humilhados, travestismo e sexo com animais).

As fantasias sexuais podem se concentrar nos órgãos genitais, nas partes do corpo que cada pessoa acha mais atraente, nas maneiras de receber carícias, nas palavras que gostaríamos de ouvir, nas posições sexuais não experimentadas, nos lugares para a relação sexual, no uso de brinquedos eróticos, na expressão do afeto, no desejo de viver o que leu no relato erótico de um livro ou revista, ou no tipo de vestimenta excitante. Enfim, não há fantasias melhores ou piores, liberadas ou proibidas, mas sim aquelas que expressam nossos desejos e emoções sexuais.

Exemplos de Fantasias

“Gostaria de prender as mãos e os pés de um homem sem pêlos em minha cama, cobrir seu corpo com mel e lambê-lo inteiro até o orgasmo”. Mulher, 22 anos.

“Quando estou transando com minha namorada às vezes me vêm imagens de homens nus que vi em revistas e em filmes pornô. Vejo que eles andam em minha direção com o pênis ereto e eu faço sexo oral neles. Fico muito excitado e minha namorada diz que adora transar comigo. Mas não tenho coragem de contar as coisas que fico imaginando”. Homem, 21 anos.

“Sempre tenho fantasias com meu marido. Imagino que estamos fazendo amor em um lugar deserto, a céu aberto, mas muito bonito”. Mulher, 35 anos.

“Imagino assistir um casal de lésbicas fazendo amor enquanto me masturbo e lanço meu esperma sobre elas”. Homem, 18 anos.

“Costumo fantasiar que transo com outras mulheres, mas adoro meu namorado e os órgãos sexuais masculinos”. Mulher, 23 anos.

“Sonho que terei uma secretária ruiva e que um dia, no intervalo do almoço, vou jogá-la sobre uma mesa e penetrá-la. Ela vai lutar no começo, mas depois vai querer mais e mais. Quase somos pegos quando o pessoal começa a voltar do almoço”. Homem, 17 anos.

“Às vezes penso que estou mantendo relações sexuais com minha mulher e com a melhor amiga dela ao mesmo tempo. Elas também transam entre si e depois nós três relaxamos no ofurô”. Homem, 40 anos.

“Enquanto me masturbo, penso que estou na penumbra, no canto de uma sala, e espio uma linda mulher se masturbar sem ter a menor idéia que estou ali”. Homem, 26 anos.

“Estou sozinha em casa quando alguém bate à porta. Quando vou atender entram três adolescentes que me agarram e dizem que vou ter que fazer tudo o que quiserem senão vão me matar”. Mulher, 31 anos.

“Imagino que estou na balada e entro num corredor escuro da danceteria. Esbarro em alguém, não sei se é homem ou mulher, mas só o toque já me deixa excitado e deixo rolar”. Homem, 20 anos.

“Tenho a fantasia que ao fazer amor com minha mulher ela peça, de repente, para que eu fique de costas para ela. Então começa a acariciar meu ânus com seus dedos e me penetra suavemente. Então, inesperadamente, ela me penetra com uma prótese de pênis presa em seu quadril”. Homem, 38 anos.

“Imagino que minha professora peça para que eu não saia da sala após a aula. Quando estamos sós, ela manda que eu me ajoelhe e faça sexo oral nela enquanto me masturbo.” Homem, 16 anos.

“Fantasio que um homem bonito, alto e musculoso me aborda em uma festa. Ele é delicado, gentil e inteligente. Vamos para o apartamento dele. Lá ele me desnuda lentamente, me beija e me abraça sem pressa. Percorre o meu corpo com a língua e descobre os meus pontos de prazer. Eu o desnudo e descubro um pênis enorme, ereto pronto a explodir. Mas ele me espera e me penetra de um jeito tão maravilhoso como eu nunca fui penetrada antes. Foi o maior orgasmo da minha vida”. Mulher, 28 anos.

Fonte:
Heiman, J. R.; Lopiccolo, J. – Descobrindo o Prazer. São Paulo, Summus, 1992.
Joannides, P. – Prazer & Emoção. Rio de Janeiro, Leganto, 2003.

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